A classe médica está entre as mais afetadas pelo Burnout
DATA: segunda-feira, 23 de abril de 2018
AUTOR: GenMedicina
FONTE: SaudeOcupacional.org
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A expressão “síndrome de burnout” foi cunhada pelo psicanalista americano Herbert Freudenberger em 1974. O nome deriva da locução verbal inglesa to burn out – queimar por completo, consumir-se. As pessoas apresentavam um processo gradual de desgaste do humor e/ou desmotivação, com sintomas físicos e psíquicos, como um “estado de exaustão”, em resposta ao estresse emocional crônico causado por atividades no trabalho que envolviam um alto grau de contato com outras pessoas (Freudenberger, 1974).

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Em 1986, a psicóloga Christina Maslach estudou a despersonalização de como os profissionais da saúde misturam a compaixão com o distanciamento emocional e evitam o envolvimento com a enfermidade ou patologia que o paciente apresenta, utilizando a “desumanização em defesa própria”, isto é, o processo de proteger a si mesmo contra situações estressoras, de forma despersonalizada.

A síndrome de burnout é composta por três dimensões (Maslach et al., 2001):

Esgotamento emocional ou exaustão. Tensão básica com sensações de sobre-esforço e de não poder dar mais de si em termos afetivos, que se produz como consequência das contínuas interações que o profissional deve manter com as pessoas e seus colegas de trabalho. O profissional sente a energia e os recursos emocionais de que dispõe se exaurirem como resultado do intenso contato diário com os problemas de outras pessoas.

Despersonalização ou cinismo. Desenvolvimento de sentimentos negativos e de atitudes cínicas em relação às pessoas para quem o profissional presta serviços. Há ausência de sensibilidade, manifestada como endurecimento afetivo, e “coisificação” das relações interpessoais, excessivo distanciamento das pessoas, silêncio, atitudes depreciativas e tentativas de culpar os outros pela própria frustração.

Baixa realização pessoal ou ineficácia. Representa a avaliação que o indivíduo realiza de seu desempenho ocupacional e pessoal, e é refletida por perda de confiança nas suas próprias realizações, com autoconceito negativo.
A pessoa com essa síndrome mostra dúvidas em suas próprias capacidades, nervosismo e fadiga, dificuldade de se concentrar em tarefas, preocupação excessiva com trivialidades, tende a imaginar cenas negativas, perturbadoras ou assustadoras, e apresenta depressão (Martin et al., 2009).

Burnout como um fenômeno provavelmente existiu em todos os tempos e em todas as culturas. Os interessados em literatura encontrarão no Antigo Testamento descrições do que hoje chamamos de burnout remontando às tarefas de Moisés (Êxodo 18:17-18) e ao “cansaço de Elias” (1 Reis 19:4-9). Entretanto, o trabalho é parte integrante da vida da maioria das pessoas. Muitas vezes, ele desempenha papel central na vida do indivíduo, contribui para a sua maneira de ser, atribui-lhe uma identidade e o torna útil dentro de seu contexto familiar e social (Meleiro, 2002). Por meio do trabalho, a pessoa adquire independência econômica, além de reconhecimento. Ele promove o desenvolvimento social e exerce papel fundamental na formação, na aquisição de conhecimentos e nas habilidades motoras e afetivas relativas à profissão.

A profissão determina grande parte de nossas vidas. Quando é satisfatório, o trabalho proporciona prazer, alegria e, sobretudo, saúde. Trata-se de um investimento afetivo. Ele também é a fonte de garantia de subsistência e de posição social para a maioria das pessoas. Muitas vezes, somos conhecidos por pertencermos a uma categoria laboral. As profissões são sempre louváveis e merecem respeito e consideração pela missão daqueles que as exercem, transmitindo seu conhecimento e dedicando seu tempo na realização das tarefas (Meleiro, 2015).

Quando é desprovido de significado, o trabalho não é reconhecido ou é fonte de ameaças à integridade física e/ou psíquica do trabalhador, o que acaba por infligir-lhe sofrimento (Meleiro, 2002). A falta de apoio dos superiores e dos colegas gera situações nas quais as emoções negativas se acumulam e causam várias perturbações mentais e psicossomáticas, além da perda de confiança, de motivação para o trabalho e de autoestima. Isso é parcialmente confirmado no estudo de Pranjic e Males-Bilic (2014).

Entre esses sintomas do burnout destacam-se insônia, tensão, frustração, fadiga, dificuldade em tomar decisões, ineficiência no trabalho, diminuição da qualidade do trabalho, queda da imunidade, diminuição da libido, alteração de apetite, esquecimento, dificuldade de concentração, insatisfação e diminuição da motivação para o trabalho.

A associação entre o burnout e a doença coronariana foi observada, inicialmente, nos próprios médicos, em 1910, pelo médico William Osler. A raiva em médicos foi discutida como produto secundário ao estresse, e a primeira observação foi feita por Osler, na Universidade de Medicina da Pensilvânia (Richlin e Sholl, 1992). Ele alertou, naquela oportunidade, para a necessidade de frieza e presença de espírito em todas as situações. Introduziu o termo acquanimitus como significado de calma e equilíbrio.

O que é preocupante é que a classe médica está entre as mais afetadas pelo burnout. O profissional médico que zela pelo bem-estar e pela saúde da população acaba por sacrificar a sua própria vida em decorrência dos danos ocupacionais. O desprendimento emocional e a negação de sua vulnerabilidade pessoal são incentivados pela escola médica, o que leva à distorção na dinâmica médico–paciente. Essa distorção favorece o surgimento de ansiedade ou depressão no próprio médico (Meleiro, 2015).

Em 2016, o editorial “Suicide among health-care workers: time to act” da revista The Lancet apontou que o burnout no médico, caracterizado por exaustão emocional, despersonalização e sentimento de realização pessoal reduzida, atingiu proporções epidêmicas no Reino Unido. Implicações de burnout são graves, não só para os pacientes, que podem sofrer com erros médicos evitáveis que se tornam cada vez mais inevitáveis, mas também para o bem-estar mental dos profissionais de saúde, que padecem de aumento no esgotamento associado à ideação suicida. É alarmante a taxa de transtornos depressivos entre profissionais da saúde, principalmente médicos, em comparação com a população em geral (The Lancet, 2016).

Mais da metade dos médicos praticantes é afetada pelo burnout, e essa taxa está em ascensão (Shanafelt et al., 2015). Quando o burnout foi visto como uma crise de bem-estar – afetando a vida pessoal dos médicos e a satisfação no trabalho –, obteve pouca simpatia pública e poderia ter sido descartado como o lamento de uma classe privilegiada. Entretanto, estudos sugerem que essa síndrome afeta negativamente a eficácia e a disponibilidade dos médicos, bem como a segurança do paciente. Por isso, a classe médica, as organizações de saúde e o público estão preocupados justificadamente com a qualidade nos cuidados de saúde e com a saúde do próprio médico, em diversos países, incluindo o Brasil.

Outro artigo da Lancet (Epstein e Privitera, 2016) identificou algumas estratégias que envolvem intervenções centradas no indivíduo e nas organizações de saúde (hospitais, ambulatórios, clínicas etc.) e que têm reduzido significativamente o burnout entre os médicos. Entretanto, são necessárias mais investigações para se fortalecer esse primeiro corpo de evidências, para esclarecer abordagens eficazes em todos os cenários e para avaliar os resultados em longo prazo, globalmente.

A posição da Mayo Clinic, nos EUA, é não se tornar complacente nem permitir que a saúde dos médicos se deteriore por contingências da agenda política, e sim garantir que a saúde e a resiliência da força de trabalho desses profissionais sejam as maiores prioridades em todos os países (Shanafelt et al., 2015).

No passado, quem era médico e detinha o título de “doutor” obtinha prestígio e, de quebra, bons salários. Atualmente, essa profissão, uma das mais tradicionais do mundo, continua sendo valorizada e é, dentre todas no Brasil, a que possui condições mais favoráveis para um futuro profissional quando são considerados: salário, jornada de trabalho, facilidade de conseguir emprego e cobertura da previdência (IPEA, 2013). Entretanto, apesar da boa empregabilidade na área e de o curso de Medicina ainda ser um dos mais concorridos nos vestibulares, “nem tudo são flores” para os médicos brasileiros.

Ser médico é dignificante e exige sacrifícios. Receber da população o reconhecimento por seu labor, mas também sofrer a cobrança para nunca errar, são apenas dois lados do mesmo desígnio. Anos a fio de estudos e o ideal de cumprir a vocação de amenizar a dor e promover o bem-estar reforçam o desejo de ser médico. Não obstante, os médicos são pessoas comuns, como quaisquer outros profissionais, e precisam atender às exigências mesmo sem condições de trabalho dignas ou em troca de míseros salários obtidos em múltiplas atividades, incluindo os plantões. Esses profissionais reclamam também da sua precária condição de saúde e, nas conversas informais, denunciam o pleno esgotamento e o limite das suas capacidades de suportar a dor, não somente física, mas emocional, além da perda, em sentido amplo, de prestígio, status e confiança (Meleiro, 2015). O desgaste profissional do médico também se reflete na sua vida pessoal, provavelmente em maior medida do que em outros ofícios. O trabalho do médico afeta suas relações interpessoais devido à falta de tempo, aos estressores acadêmicos, à sobrecarga de trabalho, à fadiga e à privação de sono. A vulnerabilidade às crises pessoais o leva a sentimentos de solidão, depressão, ansiedade, insônia, consumo abusivo de álcool ou drogas psicoativas, assim como outras manifestações físicas. Por certo, os fatores psicossociais e a saúde física mantêm forte relação entre si; as doenças, a incapacidade e mesmo a morte podem ser desencadeadas em detrimento de hábitos não saudáveis, como tabagismo, alimentação inadequada, alcoolismo e uso de outras drogas. A profissão médica parece mesmo implicar um conjunto “natural” de estressores, com os quais se começa a conviver já como acadêmico (Meleiro, 2015).

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Devido às movimentações que exige das políticas de saúde e às implicações socioeconômicas, o problema da síndrome de burnout deve ser abraçado e trabalhado também pelos médicos, inclusive pelos psiquiatras, como desafio científico, diagnóstico e terapêutico (Brekalo-Lazarevic et al., 2010). O conhecimento atual mostra que a síndrome de burnout é uma precursora ou um fator de risco para a doença depressiva (Elinson et al., 2004).

Frente aos desafios e à complexidade da questão sobre o burnout, indagamos: quais as consequências do trabalho do médico ao longo de sua vida? Infelizmente há escassa literatura sobre o assunto, além da ausência de preocupação, estratégias e planejamento de redução de danos à saúde física e mental do médico, o que, naturalmente, traz prejuízos para a população geral, quando esta necessita de cuidados, sejam preventivos ou curativos.

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Nossa classe deve tornar-se mais sensível às dificuldades em tratar um médico com burnout e mais apta a reconhecer o “pedido de ajuda” de um colega ou de si mesmo, sem, contudo, deixar de zelar pelos interesses do público. A morte precoce de um médico é um desperdício de recurso humano.

Referências bibliográficas

Brekalo-Lazarevic S, Pranjic N, Nurkic B. The influence of individual and work-related factors on sick leave. Sigurnost. 2010; 52(3):235-7.

Elinson L, Houck P, Marcus SC et al. Depression and the ability to work. Psychiatr Serv. 2004; 55(1):29-34.

Epstein RM, Privitera MR. Doing something about physician burnout. Lancet. 2016; 388(10057):2216-7.

Freudenberger HJ. Staff burn-out. J Soc Issues. 1974; 30(1):159-65.

Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Ranking traz ocupações com os maiores salários. 2013. Disponível em: www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=18829.

Martin A, Sanderson K, Cocker F. Meta-analysis of the effects of health promotion intervention in the workplace on depression and anxiety symptoms. Scand J Work Environ Health. 2009; 35(1):7-18.

Maslach C, Schaufeli WB, Leiter MP. Job burnout. Annu Rev Psychol. 2001; 52:397-422.

Meleiro AMAS. Consequências do trabalho na saúde mental do médico: qual a realidade? In: Cordeiro Q, Razzouk D, Lima MGA. Trabalho e saúde mental dos profissionais da saúde. São Paulo: Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo; 2015.

Meleiro AMAS. O stress do professor. In: Lipp M (Org.). O stress do professor. 5. ed. Campinas: Papirus; 2002.

Pranjic N, Males-Bilic L. Work ability index, absenteeism and depression among patients with burnout syndrome. Mater Sociomed. 2014; 26(4):249-52.

Richlin M, Sholl JG 3rd. Physician anger. J Fam Pract. 1992; 35(4):382-4.

Shanafelt TD, Hasan O, Dyrbye LN et al. Changes in burnout and satisfaction with work-life balance in physicians and the general US working population between 2011 and 2014. Mayo Clin Proc. 2015; 90(12):1600-13.

The Lancet. Suicide among health-care workers: time to act. Lancet. 2017; 389(10064):2.

Fonte: GenMedicina.

Título Original: O que Fazer pelo Médico com Síndrome de Burnout?

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Paulo Castro* escolheu comemorar seu aniversário de um jeito diferente. O médico de família não quis passar a data com parentes ou amigos. Preferiu ficar sozinho, em um hotel de luxo de Porto Alegre, cidade onde morava. Assim que se hospedou, pediu uma garrafa de champanhe. Mas em vez de fazer um brinde para celebrar a vida, ele decidiu que havia chegado o momento de acabar com ela. Tomou o espumante com uma grande quantidade de comprimidos e fechou os olhos para morrer. Ele ainda não havia completado 30 anos. 

Histórias como essa, cada vez mais frequentes em todo o mundo, refletem uma realidade alarmante: a cabeça dos médicos não anda bem. Só nos Estados Unidos, entre 300 e 400 tiram a própria vida todos os anos, segundo a Fundação Americana para a Prevenção do Suicídio. Praticamente uma morte por dia. "Estudos recentes têm apontado uma cifra três vezes maior de suicídio entre médicos, comparada à população em geral", diz Alexandrina Meleiro, doutora em psiquiatra do Instituto de Psiquiatria da USP (Universidade de São Paulo). No Brasil, embora não existam pesquisas de abrangência nacional que contabilizem os casos, há cada vez mais médicos que dão entrada nos serviços de emergência de hospitais por tentativa de suicídio.

A ideia de desistir da vida surge quando preocupações, cansaço e dores emocionais se acumulam em um nível que faz os médicos se sentirem incapazes de carregar esse sofrimento. Não é por fraqueza ou covardia que eles entregam os pontos. Por trás do pensamento de que viver não faz mais sentido ou que é impossível retomar o controle dos problemas, há um adoecimento psíquico. Uma luta interna para reencontrar o equilíbrio, acompanhada de uma angústia profunda que eles não confidenciam nem para as pessoas mais próximas.